ele vivia sua vida lentamente, os anos passavam sem que nada mudasse - algumas coisas até poderiam mudar, como um escritório do qual ele fosse proprietário, um caso de muito dinheiro, um filho, mas nada que desse novo sentido e essência àquela situação toda. às vezes animava sua vida sexual com uma prostituta, às vezes ia a um bar ver o jogo do seu time com um ou outro colega de trabalho - já que amigos absolutamente não tinha. chegava até ao cúmulo máximo do risco - vejam só! - de tomar três latinhas de cerveja no almoço de domingo na casa da sogra e voltar para casa dirigindo com a esposa e as já duas crias no carro. realmente, um homem de aventuras.
era mais uma tarde de trabalho, com uma chuva batendo de leve na janela do seu escritório e um vento levemente incômodo devido ao barulho que fazia, quando ouviu alguém bater à porta - o próximo cliente, sem dúvidas. no caso, era uma cliente. bem mais que isso - era a cliente. uma loira maravilhosa de vinte e poucos anos, com peitos claramente acima da média e um olhar arrasador, sorriso brilhante e jeito de quem não tinha tempo para novelas, caminhar de quem precisava de sexo vezes ao dia e de todas as formas e que certamente entendia o quanto desnecessário o ciúmes é. ela se sentou ali e começou a expor seus problemas, uma disputa de herança com as irmãs. ele imediatamente aceitou cuidar do problema e, mais que isso, já a convidou para discutir tudo num jantar na noite seguinte.
o que se passou entre os dois foi uma questão de meses e que os leitores claramente podem imaginar. só digo que todas as suspeitas de nosso personagem eram absolutamente corretas, além de outras coisas que ele ficou completamente perdido ao descobrir. a mulher em questão o levou a uma casa de swing, fez com que ele consumisse maconha - que, vejam só, ele não consumia desde os perdidos e comunistas tempos de universitário - e causou inúmeras viagens de trabalho para cidades de todo o brasil e até da américa latina. a pobre esposa já ficava desesperada com isso, mas obviamente, a novela era uma boa companheira.
infelizmente para o nosso advogado, porém, logo que o caso foi resolvido e a herança integralmente entregue à loira fatal, ela desapareceu de seu radar, nunca mais deu nenhuma notícia e nem atendeu um telefonema. ele suspeita que ela tenha ido a algum lugar paradisíaco como uma ilha no pacífico, mas viver de suspeitas é tão inútil quanto a vida que ele levava antes de conhecê-la. as decisões estavam mais que tomadas - ou melhor, nenhuma decisão estava tomada. o que viria daí em diante seria absolutamente desconhecido.
primeiro, comunicou à mulher e aos filhos que estava indo embora e eles nunca mais o veriam nem deveriam procurá-lo. pegou as remunerações conquistadas nos anos de advocacia e começou a gastar em sexo, drogas e pôquer. depois, viagens. depois, cachaça. depois, em nada. não tinha mais nenhum dinheiro, estava perdido, barbudo e com duas ou três peças de roupas em uma cidadezinha qualquer de um país da américa central, sendo que mal falava espanhol. tinha, porém, o que nunca tivera antes: liberdade.
nosso personagem andou então a um boteco, comprou um maço de cigarros com suas últimas moedas e foi andando pela cidade, fumando até o filtro todos aqueles canudos de nicotina e se lamentando ao final de cada um deles. mas, enquanto andava, sorria. sorria por ver dentro do outro lado dos muros as nuvens que antes o cobriam e impediam qualquer pensamento, qualquer reflexão, qualquer olhar sobre a vida. elas estavam dentro dos lares bem-sucedidos, oprimindo as pessoas ditas felizes. ele, por sua vez, não tinha missa no domingo pra ir. ele só tinha as ruas e as sarjetas, nas quais repousam os vômitos dos bêbados e as bitucas queimadas com todas as suas incontáveis porções de sabedoria.
