e então, carlos massari, olhe no espelho. olhe sem medo, direto nesses teus olhos fundos, e preste atenção:
aí está você, com vinte e um anos na cara. tudo parece extremamente fácil, você não tem absolutamente nada do que reclamar, não? passou no vestibular pra um dos cursos mais concorridos da segunda melhor universidade da américa latina, ganhou um edital na primeira vez que inscreveu um roteiro seu em um, tem vasto repertório sobre cinema e esportes, não tem dificuldades com as mulheres, escreve maravilhosamente bem e pode se considerar uma pessoa livre, que anda por onde quiser e quando quiser. que vida linda, não? tudo absolutamente perfeito.
não. puro engano. trágico, infeliz, desesperador engano. porque tudo, absolutamente tudo, está em milhares de pedaços espalhados pelo chão.
pois veja bem: tudo seria absolutamente perfeito se o seu bendito curso não estivesse sucateado, sem estrutura, lotado de professores e matérias boçais, e, sobretudo, não te agradasse em praticamente nada. se você não se surpreendesse com a limitação acadêmica, com os conceitos fechados e mesquinhos que, no lugar onde teoricamente se produz o conhecimento, reinam com força ainda maior que aquela que já te irritava anos atrás, no ensino médio. seria perfeito se tudo o que você quisesse agora não fosse sair correndo de lá com seu diploma, pelo menos com a recordação de algumas pessoas legais que conheceu e a possibilidade de desenvolver suas reais capacidades.
tudo seria absolutamente perfeito se este edital não fosse de uma prefeitura do interior que, sem nenhuma explicação, resolveu suspender a verba, travando o processo de pós-produção do seu primeiro filme. se isso não tivesse gerado dívidas em uma amiga sua, não tivesse causado uma avalanche de problemas. seria perfeito se você não tivesse que provavelmente enfrentar uma batalha judicial pra tirar o resto do dinheiro, prometido por contrato, e poder finalizar o filme. se você não estivesse praticamente sem saída sobre como agir com tudo isso, agora.
tudo seria absolutamente perfeito se estes repertórios não servissem pra absolutamente nada, a não ser, uma vez por ano, ensinar as regras do futebol americano pra alguém, ganhar alguma miséria com apostas esportivas, explicar o que foi a nouvelle vague francesa e construir roteiros que vão ganhar editais, futuros calotes. seria perfeito se você não se sentisse praticamente maluco por, quando está com a milésima infecção de garganta no mesmo ano, ficasse feliz por estar deitado na cama, com febre, vendo um jogo de beisebol, e não encarando mais uma vez a mesma noite que já te traz calafrios.
tudo seria absolutamente perfeito se a mulher que você amou e dedicou sua vida por mais de três anos não tivesse, poucos dias depois de dizer que não te amava mais, começado a sair com um cidadão sem um milésimo da sua inteligência, cultura, sentimento por ela e milhões de outras coisas que não valem a pena citar aqui. seria perfeito se, depois disso, você não tivesse praticamente excluido a palavra amor da sua vida, passado a ir atrás sempre de mulheres estranhas, em busca de sexo fácil, prazer momentâneo e poucas recordações, sabendo que você iria embora, teria um texto novo para escrever, deitaria na cama e ela, aquela mulher de sempre, voltaria a assombrar seus sonhos.
tudo seria absolutamente perfeito se você não fosse extremamente repetitivo, ficasse sempre em crônicas sobre amores que nunca dão certo, usasse sempre as mesmas palavras e expressões, querendo sempre metaforizar as mesmas coisas. seria perfeito se você tivesse mais de meia dúzia de leitores em um pequeno blog, que às vezes deixam comentários com alguns elogios que, você acredita, são sinceros.
tudo seria absolutamente perfeito se você pudesse realmente largar tudo. ir embora, pra um canto distante do mundo, você e a sua imagem de lobo, de animal selvagem, com os seus pulmões e o seu fígado já tão castigados pela nicotina e pelo álcool, com sua alma já tão castigada pelos sonhos quebrados, pelas promessas que nunca são cumpridas, pelas lembranças que sempre torturam, pelo vento de todas as noites que a corta no meio. seria perfeito se você não tivesse compromissos, lugares para ir, uma vida, um talento para alimentar.
então, meu caro carlos massari, é necessário te dizer: já passou da hora. levante-se, junte esses pedaços e reconstrua tudo. reconstrua cada centímetro da tua vida, mesmo com toda a arrogância e prepotência que te acompanham mundo afora. porque o tempo passa, e a cada segundo, tudo faz menos sentido. então, levante-se. levante-se, olhe para frente, caminhe e chegue onde você quer chegar: muito, muito longe.